Genial, de fato


O romance A Amiga Genial, de Elena Ferrante, clama por análise desde a perspectiva mimética, e, na falta de outros que o façam, aventuro-me eu aqui a dar um pequeno pitaco girardiano. Na superfície do texto que narra a história de Lenu e Lila, é incontestável que o modelo é Lila, com seu brilhantismo, revolta e destemor. 

É a própria Lenu quem o diz, abrindo as veias da sinceridade para explicar sua relação com a amiga já na infância, quando o pensamento mágico, que associa numa relação causal fatos sem relação de causalidade, inspira-lhe a ideia de que, se seguisse os passos de Lila, não lhe acometeria o aleijão da perna da mãe. Deixo vocês com as palavras de Lenu: 

"Mas o certo é que justo naquele período me surgiu uma preocupação. Pensei que, embora minhas pernas funcionassem bem, eu corria o risco permanente de me tornar manca. Acordava com essa ideia na cabeça e me levantava logo da cama para ver se minhas pernas ainda estavam em ordem. Talvez por isso me tenha fixado em Lila, que tinha pernas magérrimas, ligeiras, sempre em movimento, balançando-as mesmo quando se sentava ao lado da professora, tanto que esta se irritava despachando-a para seu lugar. Algo me convenceu, então, de que se eu caminhasse sempre atrás dela, seguindo sua marcha, o passo de minha mãe, que entrara em minha mente e não saía mais, por fim, deixaria de me ameaçar. Decidi que deveria regular-me de acordo com aquela menina e nunca mais perdê-la de vista, ainda que ela se aborrecesse e me escorraçasse."

E a decisão de fundo mágico, tomada na inconsciência da infância, de tomar Lila por modelo acaba por lhe moldar toda a vida adulta e consciente. De fato, há muito de inconsciente mesmo nas nossas ações mais à flor da pele da consciência. Voltando, porém, romance, temos também que ver que a própria Lila, embora a mais dominante das duas, também admira o sucesso acadêmico de Lenu e a consequente possibilidade que se lhe abre de franquear os limites do bairro rumo à civilização. Lila, de fato, não é indiferente às conquistas de Lenu, e isso nos proporciona um dos momentos de maior beleza no romance. 

Refiro-me a quando Lila, às vésperas de seu casamento, manifesta a Lenu o desejo de que ela continue sempre sendo a sua amiga genial. Embora aqui e acolá Lila menospreze as evoluções de Lenu, nesse    trecho, o modelo desce de seu pedestal e revela um dado espetacular: há entre elas a reciprocidade própria da amizade. Não é só Lenu que admira Lila, mas também esta coloca aquela como bússola do seu desejo. 

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